Terra Sonâmbula

Já faz algum tempo que sigo o blog Vide Letra e peguei essa dica de lá. O livro se chama Terra Sonâmbula, de Mia Couto. O autor é de Moçambique e narra nesse livro a história de duas pessoas que se encontram no meio da guerra.

O país passou mais de 30 anos em geurra. Primeiro foi a guerra anti-colonial (1965-1975) e depois veio a guerra civil (1976-1992). Ou seja, o país ficou devastado e as pessoas viviam sem perspectiva de uma vida melhor. Nesse contexto estão dois companheiros de viagem: Tuahir é um senhor que cuida de Muidinga, um menino cheio de dúvidas e inquietações.

Os dois vagam pela estrada em busca de proteção e encontram um ônibus incendiado. Resolvem se esconder ali. Ao lado, Muidinga descobre uma mala com 12 cadernos. Neles está escrita a história de Kindzu, um jovem que foge de sua vila para viver diversas aventuras cheias de mistérios e magia. Esses cadernos servem como uma folga da realidade para os dois companheiros, que se entregam por inteiro a cada uma das histórias.

Para começar, o livro é escrito em português, mas parece outro idioma. É muito engraçado ver palavras como “autocarro” aparecerem na sua frente. Mas é essa linguagem que dita o ritmo da história, além de toda a poesia. Porque Mia Couto é um poeta. Ele não descreve cenários, pinta quadros.

Outro fator que me encantou é o misticismo. A cultura africana é cheia de lendas, monstros e histórias fantásticas. O livro é cheio delas e com isso a gente consegue captar bem o que é viver na África. Fechei o livro e pensei: preciso ler mais coisas assim.

Por que ler Terra Sonâmbula? Para sair das histórias que estamos acostumados, para sair da zona de conforto e para se emocionar com os dois personagens, que são lindos!

Na introdução tem três citações que descrevem bem o clima da história:

“Se dizia daquela terra que era sonâmbula. Porque enquanto os homens dormiam, a terra se movia espaços e tempos afora. Quando despertavam, os habitantes olhavam o novo rosto da paisagem e sabiam que, naquela noite, eles tinham sido visitados pela fantasia do sonho.” ( Crença dos habitantes de matimati)

“O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro.” (Fala de Tuahir)

“Há três tipos de homens: os vivos, os mortos e os que andam no mar.”(Platão)

E agora o primeiro parágrafo:

“Naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada. Pelos caminhos só as hienas se arrastavam, focinhando entre cinzas e poeiras. A paisagem se emstiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca. Eram cores sujas, tão sujas que tinham perdido toda a leveza, esquecidas da ousadia de levantar asas pelo azul. Aqui, o céu se tornara impossível. E os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte.”

Foto: reprodução

Vai lá: Terra Sonâmbula

            Mia Couto

           Cia. das Letras

        204 páginas

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